O Processo de Burocratização Da Ética (Ou Como Se Produz a Ética Na Própria Empresa)

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O Processo de Burocratização da Ética (ou como se produz a Ética na própria Empresa) Autoria: Fabio Bittencourt Meira Resumo O artigo discute a ética nas organizações, com o objetivo de apresentar o problema da burocratização da ética nas empresas. Apresenta uma discussão teórica a respeito da validade do conceito de racionalidade ética nas organizações. Traz também um levantamento das formas e dos modos de instrumentalização da gestão ética criados pelas empresas, e as ferramentas de gestão desenvolvidas para este propósito. Finalmente, evidencia que os artefatos criados para a gestão da ética organizacional trazem inovações, que amplificam o controle disciplinar dos membros da organização. Introdução O movimento da ética empresarial organizou-se, nos EUA, como uma estratégia para capacitar as empresas a enfrentarem o incômodo de fatores contingenciais imprevistos. De início, o problema estava em buscar, no diálogo com a filosofia, elementos que removessem as dificuldades de lidar com valores morais, interpretados como causadores das fricções entre as organizações empresariais e a sociedade (DeGeorge, 1982). Ao longo do processo, entretanto, o confronto das empresas com as forças sociais do ambiente adquire outra feição, transforma-se numa preocupação gerencial de controle disciplinar, restrita às fronteiras da organização. O desconforto inicial, calcado no ethical concern a respeito do desalinhamento de valores entre as empresas e a sociedade, foi se metamorfoseando para, finalmente, positivar-se numa série de rotinas e procedimentos de caráter interno, cujo sentido parece ser aquele de ampliar o controle sobre os comportamentos desviantes dos membros da organização. Observou-se nesse caminho uma crescente burocratização da ética, que representou um novo entendimento a respeito do que sejam os problemas éticos de uma organização. Essa nova concepção promoveu uma surpreendente convergência entre a ética empresarial e os princípios disciplinares que pautam a eficiência burocrática. O resultado é uma espécie de ética manufaturada pela própria empresa, totalmente alinhada com seus interesses e objetivos. Este artigo representa um esforço em mapear essa transformação. Com base na análise de documentos publicados pelas empresas e associações patronais, além do exame da literatura especializada, o objetivo é, além de oferecer um panorama do processo de burocratização da ética, analisar seus resultados e efeitos no que tange à ampliação da capacidade de controle do comportamento dos indivíduos nas organizações. O artigo está dividido em três partes. A primeira articula conceitualmente o problema da organização burocrática e da ética organizacional, e discute as dificuldades teóricas de fundamentação da atribuição de responsabilidades morais no contexto organizacional. A segunda parte apresenta os modos de instrumentalização da ética criados pelas empresas, os programas de gerenciamento ético, e as ferramentas de gestão desenvolvidas, e que estão, atualmente, em uso. A última seção é dedicada à analise das inovações estratégicas de controle disciplinar, de que são portadores os artefatos criados para a gestão da ética organizacional.

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O fundamento teórico: organização burocrática vs. organização ética O passo inicial em direção à burocratização da ética nas empresas foi, curiosamente, o descarte da burocracia como problema teórico da análise ética das organizações. É preciso ter em mente que, como afirma Prestes Motta, a burocracia radica num tipo de racionalidade jurídica-formal que “implica determinada ética associada às condições de produção capitalistas”, de maneira que a “precisão, a continuidade, a uniformidade, a subordinação ...” representam as “virtudes burocráticas” (1986: 67). Não é por acaso, portanto, que a burocracia apareça como conceito chave num artigo seminal da business ethics, escrito por John Ladd (1970), que aponta as dificuldades em compatibilizar o ideal de racionalidade das organizações...
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